Como são perseguidas as mulheres cristãs?
Publicado em 16 Fev 2026 • Atualizado em 16 Jun 2026

Em diversos países, as mulheres enfrentam discriminação e violência. São consideradas inferiores aos homens e veem a sua atuação limitada ao âmbito doméstico. Noutras culturas, são tratadas como propriedade dos homens da família — pai, marido, irmão, tio ou primo — que detêm autoridade legal sobre elas, incluindo o direito de as castigar ou até matar. Contudo, esta realidade agrava-se quando decidem abandonar a fé dos seus antepassados para seguir Jesus Cristo.
As mulheres e meninas cristãs que vivem nos países incluídos na Lista Mundial da Perseguição (LMP) 2026 enfrentam uma dupla perseguição: por serem mulheres e por serem seguidoras de Cristo.
Como ocorre a violência contra mulheres cristãs?
Enquanto a violência contra homens e rapazes cristãos tende a ser mais visível — através de agressões físicas, despedimentos e prisão —, as mulheres e meninas cristãs são frequentemente atingidas na sua honra sexual e familiar. São forçadas a casar ou a divorciar-se, sujeitas a abusos físicos, psicológicos e sexuais, e muitas vezes raptadas.
Dados da LMP 2024 indicam que as mulheres e meninas cristãs enfrentam um risco acrescido — em 84% dos países com perseguição — de serem obrigadas a casar. Esta prática constitui uma forma de exploração e controlo. No norte dos Camarões, por exemplo, homens muçulmanos podem sequestrar mulheres nos mercados e mantê-las em cativeiro durante semanas ou até anos, com o objetivo de as abusar e engravidar, para assim reivindicarem direitos sobre elas.
Nos países do Médio Oriente, mulheres e meninas que abandonam o Islão para seguir Jesus são frequentemente coagidas a casar com homens muçulmanos mais velhos, muitas vezes com autoridade religiosa. Esta prática visa forçá-las a abandonar a fé cristã, sendo a conversão vista como uma afronta à honra familiar.
As mulheres casadas podem ainda ser forçadas ao divórcio, expulsas de casa, privadas dos filhos e do seu sustento. Perdem também o reconhecimento social, pois deixam de contar com a proteção de um homem da família, tornando-se mais vulneráveis à violência por parte de vizinhos, criminosos e extremistas religiosos.
Em algumas situações, as mulheres são alvo de ataques físicos e sexuais para atingir os homens cristãos. Um exemplo são os raptos de filhas de pastores e líderes de igrejas, que são transformadas em escravas sexuais e frequentemente obrigadas a casar com membros de grupos extremistas. Além disso, estas vítimas são muitas vezes rejeitadas pela comunidade, pois aquilo que lhes conferia valor social foi-lhes retirado. Como afirma um documento da Portas Abertas sobre perseguição de género: “a captura de mulheres numa comunidade demonstra aos homens que não foram capazes de as proteger”.

As meninas e mulheres cristãs que vivem em contextos de guerra, como no Sudão e na Síria, e em cenários de conflito armado, como no México, Colômbia e África Subsariana, estão mais expostas à pressão e à violência. A violência sexual é frequentemente utilizada como tática de guerra, com o propósito de dominar, submeter, oprimir e espalhar o terror. Nestes contextos, a ausência de um Estado que reprima os crimes e puna os agressores contribui para uma cultura de impunidade, que normaliza a violência e desencoraja a denúncia.
As cristãs deslocadas e refugiadas que conseguem fugir dos conflitos permanecem igualmente vulneráveis à violência e à exploração sexual. Um exemplo disso foi o ataque de extremistas fulani contra 11 mulheres cristãs, que haviam saído para recolher lenha nas proximidades do campo de deslocados onde se encontravam.
As refugiadas encontram-se ainda em risco de tráfico humano, ao aceitarem propostas de trabalho noutros países ou regiões, na esperança de escapar às condições desumanas dos campos de refugiados. Contudo, muitas descobrem tarde que foram conduzidas a situações de escravatura laboral e exploração sexual.
Na China, onde a política do filho único levou ao aborto de muitas meninas, desenvolveu-se um mercado de tráfico de noivas. Muitas mulheres e meninas do estado de Kachin, em Myanmar, de maioria cristã, são raptadas e vendidas a chineses. Vivem isoladas em zonas rurais e são vítimas de violência física e sexual, sendo forçadas a gerar descendência, preferencialmente masculina, para famílias chinesas.
Em países como a Colômbia e o México, meninas cristãs são alvo de grupos criminosos. São raptadas e obrigadas à prostituição e à escravidão sexual. Segundo um especialista da Portas Abertas, os líderes criminosos visam especialmente filhas de famílias cristãs, considerando a sua obediência um fator que facilita a coerção, ameaçando prejudicar as suas famílias. Este comportamento distinto faz com que sejam mais valorizadas nas redes de tráfico.
Quem são os agressores das mulheres cristãs?
Muitas vezes, os primeiros agressores de uma mulher ou menina que decide seguir Jesus encontram-se dentro da própria família. Maridos, pais, irmãos, tios e até filhos podem puni-las por romperem com a tradição religiosa, recorrendo a violência física, psicológica, prisão domiciliária, divórcio forçado ou casamento imposto com homens da religião dominante.
Também alguns vizinhos se sentem legitimados a perseguir cristãs através de agressões verbais, físicas e sexuais. Certos líderes muçulmanos contribuem para esta realidade, ao incentivarem jovens a casar com cristãs para as converter ao Islão, sendo que os filhos dessas uniões são obrigados a seguir a fé do pai.

Após sucessivos ataques perpetrados por grupos extremistas, mulheres têm sido socorridas nas suas necessidades essenciais no Burkina Faso
Na África Subsariana, grupos extremistas como as Forças Democráticas Aliadas, Boko Haram e Al-Shabaab sequestram mulheres e meninas cristãs, levando-as para campos onde sofrem abusos físicos e sexuais. Muitas ficam grávidas e, ao regressarem às suas comunidades, são rejeitadas.
Há ainda traficantes de pessoas que exploram a vulnerabilidade destas mulheres, conduzindo-as à escravidão doméstica e sexual. Em alguns casos, as autoridades ignoram estes abusos, sobretudo quando as vítimas são forçadas a casar com os próprios agressores.
O que acontece após os atos de violência?
As cristãs forçadas a casar vivem frequentemente num sofrimento contínuo, sujeitos a abusos por parte do marido, dos sogros e até dos próprios filhos. Em algumas situações, a pressão é tão intensa que acabam por abandonar a fé em Jesus.
As irmãs que conseguem escapar antes do casamento recebem, muitas vezes, acolhimento por parte de igrejas e organizações cristãs, como a Portas Abertas. Através de apoio físico, emocional e espiritual, são ajudadas a reconstruir as suas vidas.

Em contextos dominados por extremistas, quando uma cristã consegue fugir, muitas vezes regressa à sua comunidade, mas enfrenta condenação moral por já não ser virgem ou por ter filhos de militantes. Como declara um colaborador na Nigéria: “Muitas meninas vítimas de abuso sexual carregam cicatrizes profundas e traumas duradouros; a sua autoestima é gravemente afetada, e frequentemente não encontram apoio nas suas comunidades.”
Perante este cenário, a Portas Abertas afirma que é responsabilidade dos cristãos em todo o mundo investir em iniciativas que reafirmem o valor eterno e imutável destas mulheres diante de Deus, alcançando tanto as vítimas como as suas famílias e comunidades.
Mulheres preparadas para servir e liderar
Apesar das diversas formas de perseguição, muitas mulheres e meninas cristãs permanecem firmes em Cristo e dispostas a fazer discípulos de Jesus. Ao contribuir, torna-se possível apoiar mulheres no Médio Oriente com formação online, ajudando-as a descobrir o seu papel no Reino de Deus e a liderar igrejas nos seus lares.
A Redação Portas Abertas Portugal é a equipe editorial de atuação na cobertura da perseguição aos cristãos no mundo. Publica notícias baseadas em relatos diretos de correspondentes e cristãos locais em mais de 70 países. Nosso processo editorial é baseado em verificação, contextualização e avaliação de riscos. A identidade das fontes é preservada quando há risco à segurança, sem comprometer a veracidade dos fatos.
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