Fé oculta à vista de todos
Publicado em 14 Dez 2025 • Atualizado em 15 Dez 2025

Khada* nasceu numa família profundamente religiosa no Afeganistão. Desde pequena, sentia a pressão para ser vista como parte de uma boa família muçulmana, o que significava uma vida centrada na mesquita da comunidade. O avô era um homem que respeitava o líder religioso local e queria que a família fosse considerada exemplar.
Todos os dias, fazia questão que os filhos chegassem antes de todos às orações da manhã. Essa participação na mesquita era notada. A mãe de Khada, temendo o sogro, orava em casa. A família era respeitada pela sua religiosidade e também por outros motivos, pois o pai tinha um cargo oficial que lhe conferia prestígio na comunidade. Quando ficou um pouco mais velha, como outras jovens afegãs, ficou noiva. A família arranjou o casamento com um primo, que acabou por se tornar uma união feliz.
Khada deixou a casa da família e mudou-se para a casa da família do marido, uma prática comum no Afeganistão. “A nossa relação era muito boa. Todos na família do meu marido me amavam, principalmente ele.” Trabalhava num escritório e a sua personalidade tornou-a popular entre os colegas, desenvolvendo uma amizade próxima com a chefe. “Tornámo-nos amigas e tínhamos liberdade uma com a outra, partilhando histórias das nossas vidas”, disse. À medida que a amizade se aprofundava, a confiança crescia, até que a chefe tomou um grande risco que mudaria a vida de Khada: “Um dia, ela deu-me um livro sem dizer nada. Era uma Bíblia”, recorda.
Khada colocou a Bíblia na bolsa e levou-a para casa para mostrar ao marido. Ambos tinham estudado o Alcorão e estavam curiosos sobre o que a Bíblia dizia. Durante seis meses, leram juntos o Antigo e o Novo Testamento e ficaram maravilhados com o que descobriram. “Quando comecei a ler o livro com o meu marido, surgiram muitas perguntas. Resolvemo-las juntos. Ele amava-me muito, então disse: ‘Independentemente do caminho que escolheres, sou teu companheiro e seguirei contigo’”, contou Khada.
Partilhando a fé

Durante seis meses, Khada e o marido leram juntos o Antigo e o Novo Testamento e ficaram maravilhados com o que descobriram (imagem ilustrativa).
Após muita leitura e conversa, decidiram entregar a vida a Jesus e foram batizados, momento em que Khada recebeu cura física e espiritual: “A partir daquele dia, a dor de cabeça que tinha desapareceu e estou completamente bem agora.” A jornada de fé do casal começou a dar frutos. Seguir Jesus encheu-os de tal alegria que queriam falar aos outros sobre o novo relacionamento com Deus.
O irmão de Khada foi o primeiro a quem ela falou de Jesus. “Ele estava ansioso por estar desempregado. Dei-lhe a tarefa de aprender histórias do Antigo Testamento e ele acreditou. Depois partilhei histórias com a minha família e todos se tornaram cristãos. O meu marido partilhou histórias com a irmã e ela também se tornou cristã. Assim, continuámos a espalhar a nossa fé”, contou.
As coisas pareciam estar bem e, apesar dos riscos naturais de seguir Jesus no Afeganistão, a vida de Khada era, na maioria, feliz. Mas, numa noite, tudo mudou. “O meu marido desapareceu após visitar um grupo de estudo. Quando o telefone dele não tocava, pensei que estivesse fora de área. Liguei para familiares e não havia notícias. Fiquei com medo e tive todo o tipo de pensamentos”, relembra.
Dois dias depois, ele foi encontrado morto, com sinais de tortura. “Foi tão traumático que entrei em coma. Quando recuperei a consciência, estava em casa e o corpo do meu marido já tinha sido levado para ser enterrado”, disse.
Desafios sob o regime talibã

Após a morte do marido, Khada decidiu parar de chorar e continuar no caminho de Cristo, independentemente das dificuldades (imagem ilustrativa).
Até hoje, Khada não sabe por que ele foi levado ou quem o matou, e provavelmente nunca saberá. Recorda como a antiga chefe, que lhe apresentou Jesus, a consolou dizendo que o marido agora estava com Cristo. Khada encontrou força e conforto nas Escrituras: “Parei de chorar, li Efésios capítulo seis e fiz um voto de seguir no caminho de Cristo.”
Os momentos mais difíceis são as noites. Antes, quando os filhos dormiam, ela conversava com o marido e liam a Bíblia juntos. Esse tempo acabou, mas a fé de Khada não diminuiu. Mesmo que o marido tenha partido, Khada conversa com Jesus e o relacionamento com Ele fica cada vez mais forte. “No passado, todas as minhas histórias e conversas eram com o meu marido. Agora, todas são com Jesus. Acredito que Ele ouve todas as minhas orações”, conta.
Quando o Talibã assumiu o controlo do Afeganistão, a vida tornou-se muito difícil para as mulheres. A maioria está proibida de trabalhar fora de casa e, quando o faz, deve estar acompanhada por um homem como guardião. “Continuo a ser serva de Cristo, seguindo o Seu exemplo de humildade e grandeza. Enfrentamos desafios no regime talibã, mas com uma fé forte, perseveramos”, partilhou.
Cristãos no Afeganistão, apesar de poucos, seguem o chamado que receberam de Deus. Não é seguro nem fácil, mas têm fé para completar a obra que Deus preparou. “Se perdermos a vida, estaremos orgulhosos de nós mesmos. Peço orações pelo Afeganistão e pelos não cristãos, para que creiam em Cristo. Quando escolhemos o caminho de Cristo, sabemos que ele tem dificuldades, mas com esperança e uma promessa feita entre nós, continuamos a jornada. Esperamos que um dia tudo fique bem e tenhamos um Afeganistão completamente cristão. Lembro-me sempre desta lição: o Afeganistão deve mudar, e isso acontecerá se tivermos uma fé firmada em Jesus Cristo”, explica.
Muitas pessoas, vindas das profundezas da dúvida e do desespero, caminham em direção à verdadeira fé. Quando as suas orações na religião anterior não são atendidas, procuram uma luz que as conduza a Jesus Cristo.
Por exemplo, conheci a Maryam há alguns meses. Depois de partilhar a minha história com ela, Maryam aproximou-se de mim e começou a abrir-se sobre a sua própria vida. Ela tem vários filhos. O seu marido foi morto na guerra. Era um homem cruel que oprimia muitas pessoas e, por causa disso, Maryam sofreu profundamente. Após a sua morte, perguntava-se frequentemente se Deus a perdoaria, por ter sido esposa de um homem cruel.
Depois de ela partilhar isso, falei-lhe sobre o perdão de Deus. Maryam chorou profundamente, abraçou-me com força e disse: “Quando ouvi que Deus podia perdoar-me, senti-me livre”. Hoje, Maryam é uma cristã forte. A fé encontra sempre o seu caminho, mesmo nos tempos mais sombrios.
“Num mundo que tantas vezes se esquece de nós, só saber que alguém, algures, está a orar com um coração cheio de luz por nós significa que somos vistos. E, para nós, isso significa tudo.” – Khada
*Nome alterado por segurança.
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