Tudo sobre a guerra no Sudão
Publicado em 13 Mai 2026 • Atualizado em 19 Mai 2026

A guerra no Sudão tem provocado uma das mais graves crises humanitárias da actualidade. Desde Abril de 2023, o conflito armado entre as Forças Armadas Sudanesas (SAF) e as Forças de Apoio Rápido (RSF) lançou o país numa espiral de violência extrema, deslocação forçada em massa e colapso dos serviços essenciais.
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Embora toda a população civil sofra os impactos da guerra, os cristãos sudaneses enfrentam riscos ainda maiores, por constituírem uma minoria religiosa historicamente perseguida no país.
O que está a acontecer no Sudão?
O actual conflito resulta directamente do golpe militar de Outubro de 2021, que derrubou o governo civil de transição estabelecido após a Revolução de 2019, responsável pela destituição do ex-presidente Omar al-Bashir.
Essa transição gerou esperança quanto ao avanço dos direitos humanos e da liberdade religiosa. Contudo, o golpe restaurou a influência de líderes militares e políticas associadas à perseguição aos cristãos, características do regime de al-Bashir.

Em Abril de 2023, as tensões entre a SAF, liderada pelo general Abdel Fattah al-Burhan, e a RSF, comandada por Mohamed Hamdan Dagalo (Hemedti), evoluíram para uma guerra em larga escala, motivada sobretudo por disputas de poder e divergências quanto à reforma do sector da segurança.
Quem está em guerra no Sudão?
Forças Armadas Sudanesas (SAF)
As SAF procuram manter o Exército como principal instituição de poder no país e exigem a dissolução ou a plena integração das RSF nas suas fileiras. Actualmente, controlam grande parte do Norte e do Leste do Sudão, incluindo Port Sudan, e retomaram Cartum no início de 2025, embora a capital permaneça profundamente devastada.
Forças de Apoio Rápido (RSF)
As RSF tiveram origem na milícia Janjaweed, acusada de genocídio na região de Darfur. Este grupo controla grande parte de Darfur e áreas estratégicas do Cordofão, ricas em recursos naturais como o ouro, principal fonte de financiamento da sua liderança. O seu objectivo é derrotar a SAF e assumir o controlo total do país.
Consequências da guerra no Sudão
As consequências do conflito são devastadoras:
- Mais de 150 mil mortos;
- Cerca de 10 milhões de deslocados internos;
- Aproximadamente 4,4 milhões de refugiados em países vizinhos;
- Colapso do sistema de saúde, escassez de água e fome generalizada.
A insegurança impede a chegada de ajuda humanitária. As organizações enfrentam severas restrições de acesso, bem como saques, ataques a comboios e assassinato de trabalhadores humanitários.
Como são afectados os cristãos no Sudão?
Os cristãos representam cerca de 4% da população sudanesa e são frequentemente vistos como uma minoria indesejada. Tanto a SAF como a RSF actuam com ideologias influenciadas por um islamismo radical, o que resulta numa forte intolerância religiosa.
Desde o início do conflito, há registo de:
- Igrejas bombardeadas, vandalizadas ou encerradas à força;
- Prisões, sequestros e assassinatos de líderes cristãos;
- Proibição de celebrações religiosas, como o Natal;
- Violência dirigida a cristãos convertidos do islamismo.

Em regiões como El Fashir, mais de dois mil civis foram executados. Há relatos da existência de valas comuns, com indícios de crimes de guerra.
Outro grave impacto do conflito é o trauma emocional.
“A igreja não está consciente dos sinais e efeitos do trauma nem da necessidade de cuidado. É muito triste”, afirma um líder de igreja no Sudão.
Deslocação, fome e discriminação na ajuda humanitária
Um pastor de Port Sudan testemunha:
“Esta guerra provocou a falta de oportunidades de trabalho e o aumento dos preços. Todos estão sem esperança, sem saber como agir ou viver. Consegue fazer apenas uma refeição por dia, por vezes nenhuma. As pessoas enfrentam uma vida extremamente difícil.”
Os cristãos deslocados enfrentam uma dupla vulnerabilidade. Para além de perderem as suas casas, meios de subsistência e segurança, há relatos de discriminação na distribuição de ajuda humanitária.
“O que mais me afecta é não ter uma fonte de rendimento estável. Não posso abandonar a igreja para procurar trabalho, pois isso prejudicaria a congregação. Nem sequer tenho dinheiro para o transporte. Hoje vim sem nada no bolso. Tenho menos de um dólar, ainda assim dou graças, porque Deus é o nosso provedor”, acrescenta o pastor.
Fontes locais indicam que:
- Cristãos são excluídos por líderes comunitários em algumas áreas rurais;
- Há hostilidade religiosa em campos de deslocados internos;
- O medo leva muitos cristãos a evitar abrigos oficiais.
Tentativas de paz e desafios
Diversas iniciativas diplomáticas procuraram pôr termo à guerra, incluindo mediações da União Africana e esforços liderados pelo grupo conhecido como Quad (Estados Unidos, Egipto, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos). Até ao momento, nenhuma resultou num cessar-fogo duradouro.

Líderes comunitários, chefes de clãs e líderes religiosos continuam a desempenhar um papel essencial na mediação local e na protecção dos civis, embora permaneçam à margem dos processos formais de paz.
Saiba mais sobre a perseguição aos cristãos no Sudão, o 4.º país da Lista Mundial da Perseguição 2026.
Como a Portas Abertas apoia os cristãos no Sudão
A Portas Abertas presta auxílio de emergência aos cristãos sudaneses, oferecendo:
- Alimentos (farinha, óleo, açúcar e enlatados);
- Kits de higiene;
- Apoio a famílias deslocadas.
Desde 2023, 12.221 pedidos de ajuda já foram atendidos através de parceiros locais.
Além disso, a Igreja global tem sido mobilizada a orar e a apelar à comunidade internacional pelo fim da violência, através da campanha Desperta África.
Perguntas frequentes
Qual é a religião predominante no Sudão?
O islamismo é a religião predominante, com cerca de 90% da população muçulmana, maioritariamente sunita.
Existe genocídio no Sudão?
Há fortes acusações de genocídio, especialmente na região de Darfur, embora a designação oficial exija base jurídica. É necessário comprovar a intenção de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso.
Segundo a ONU e organizações de direitos humanos, existem indícios de genocídio, incluindo execuções, assassinatos em massa com base étnica, violência sexual generalizada e destruição de comunidades.
Como posso ajudar os cristãos perseguidos no Sudão?
Pode orar, contribuir financeiramente e divulgar informação, de forma a garantir apoio de emergência aos cristãos que enfrentam fome, violência e deslocação forçada. Saiba mais na página da campanha Desperta África.
A Redação Portas Abertas Portugal é a equipe editorial de atuação na cobertura da perseguição aos cristãos no mundo. Publica notícias baseadas em relatos diretos de correspondentes e cristãos locais em mais de 70 países. Nosso processo editorial é baseado em verificação, contextualização e avaliação de riscos. A identidade das fontes é preservada quando há risco à segurança, sem comprometer a veracidade dos fatos.
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